O Mapa Invisível da Esclerose Múltipla no Brasil
Quarenta organizações — associações, federações, comitês científicos e centros de investigação — sustentam sozinhas a rede de apoio a quem vive com EM no país. Este é o diretório completo.
Uma Rede Que Nasceu Antes do Sistema
Antes de existir política pública para esclerose múltipla no Brasil, existiu gente reunida numa sala. Em 1984, Ana Maria Levy e o médico Renato Basile fundaram em São Paulo a ABEM — Associação Brasileira de Esclerose Múltipla. Naquele momento não havia protocolo clínico nacional, não havia medicamento modificador de doença distribuído pelo SUS e a palavra “esclerose” ainda era confundida, no imaginário popular, com envelhecimento.
Pense numa rodovia federal que ainda não foi asfaltada. Antes do asfalto chegar, quem precisa atravessar abre trilha na mão. As associações de pacientes são essa trilha: elas existem para cobrir o vazio que o Estado ainda não cobriu, e continuam existindo depois, porque o asfalto nunca chega em todo lugar ao mesmo tempo.
A ABEM se tornou entidade de utilidade pública nas três esferas — federal, estadual e municipal — e filiou-se à Multiple Sclerosis International Federation, sediada em Londres. Isso importa por um motivo prático: significa que o Brasil passou a ter assento na rede internacional que define agendas de pesquisa e campanhas globais de conscientização.
fortalecimento da rede de associações de pacientes de EM em todo o Brasil
ABEM — Associação Brasileira de Esclerose Múltipla, missão institucionalDois anos depois de duas décadas de trabalho, veio o reconhecimento simbólico: a Lei Federal nº 11.303, de 2006, instituiu o 30 de agosto como Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla. A data foi escolhida por ser o aniversário da fundadora da ABEM.
Quarenta marcações espalhadas por dezoito estados — e grandes manchas de território sem nenhum ponto aceso.
Três Camadas Que Fazem Coisas Diferentes
Quem procura ajuda costuma tropeçar numa confusão de siglas. Elas parecem todas iguais, mas fazem trabalhos distintos, e entender a diferença economiza meses de porta errada.
A primeira camada é a das associações de pacientes. São locais ou estaduais, movidas por voluntariado, e resolvem o cotidiano: grupo de apoio, orientação sobre benefícios, encaminhamento para o serviço certo, fisioterapia, escuta. É a portaria do prédio — a primeira pessoa que sabe para onde te mandar.
A segunda é a das entidades articuladoras nacionais. A ABEM, a FEBRAPEM (federação que reúne associações civis) e a AME — Amigos Múltiplos pela Esclerose — trabalham em advocacy, produzem material técnico e conversam com Ministério da Saúde, Conitec e Anvisa. É a administração do condomínio: não conserta a sua torneira, mas negocia o contrato que faz a água chegar.
promover o estudo, a educação, a pesquisa e a divulgação de informações
BCTRIMS — Comitê Brasileiro de Tratamento e Pesquisa em Esclerose Múltipla, finalidade estatutáriaA terceira é a camada científica e assistencial. O BCTRIMS, fundado em 1999, publica os consensos que orientam o neurologista brasileiro e representa o país no LACTRIMS, sua congênere latino-americana. Já os centros de investigação — como o CIEM, no Hospital das Clínicas da UFMG — atendem pacientes pelo SUS e produzem pesquisa ao mesmo tempo.
Produzimos assistência aos pacientes; educação com residentes, internos e estagiários; e pesquisa
Marco Aurélio Lana-Peixoto, coordenador do CIEM/HC-UFMG, 2023Salas emprestadas, telefones que atendem de verdade, gente que já passou pelo que você está passando.
Consensos, congressos, bancos de dados — a camada que decide o que será considerado tratamento padrão.
O Diretório Nacional Completo
A lista a seguir reúne quarenta organizações mapeadas em diretórios públicos, sites institucionais e registros oficiais. Estão organizadas em três blocos — nacionais, científicas e regionais — e, dentro dos regionais, por macrorregião do IBGE. Use o bloco da sua região como ponto de partida.
Fundada em 1984. Filiada à MSIF, à International Progressive Alliance e à REDLATEM.
Fundado em 1999. Publica os consensos brasileiros de tratamento.
Atende cerca de 1.500 pacientes pelo SUS, com equipe multidisciplinar.
Parceiro do CIEM no Congresso Mineiro de EM e Neuromielite Óptica.
Orienta o encaminhamento via SISREG para os centros de referência do estado.
informação qualificada, apoio, acolhimento e a defesa dos direitos das pessoas
AGAPEM — Associação Gaúcha de Pessoas com Esclerose Múltipla, missão institucionalVinte e uma das quarenta organizações estão em São Paulo, Minas, Rio, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Acre, Amapá, Roraima, Rondônia, Tocantins, Maranhão, Sergipe, Alagoas e Mato Grosso: nenhum registro público.
Como Usar Esta Lista Sem Perder Tempo
Diretório serve para encurtar caminho. A sequência abaixo é a ordem que costuma funcionar — do contato mais próximo ao mais institucional.
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1Comece pela associação do seu estado.
É quem conhece a rede local: qual hospital tem ambulatório de EM, qual farmácia de alto custo funciona, qual assistente social atende. Se o seu estado não estiver na lista, pule para o passo 2.
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2Acione uma entidade nacional.
ABEM, FEBRAPEM e AME atendem pessoas de todo o país por telefone, e-mail e canais digitais, e conseguem indicar o serviço mais próximo mesmo onde não há associação instalada.
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3Confirme o contato antes de se deslocar.
Boa parte dos telefones e endereços públicos vem de diretórios desatualizados. Ligue, escreva ou cheque a rede social antes de pegar estrada — associações pequenas mudam de sede com frequência.
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4Peça o encaminhamento formal pelo SUS.
O tratamento de EM é coberto pelo Sistema Único de Saúde. O caminho padrão é consulta na atenção básica, encaminhamento ao neurologista e regulação para um centro de referência.
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5Procure um centro de investigação para casos complexos.
CIEM, CAPPEM e os centros universitários reúnem neurologista, oftalmologista, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e psicólogo no mesmo serviço — e é onde os protocolos mais novos chegam primeiro.
O tratamento não deve ser somente medicamentoso, e sim multidisciplinar
Marco Aurélio Lana-Peixoto, coordenador do CIEM/HC-UFMG, 2024Ressalva Metodológica
Os diretórios públicos que consolidam essas entidades foram atualizados pela última vez, em sua maior parte, em 2021. Telefones, e-mails, endereços e status de funcionamento precisam ser reconfirmados um a um antes de qualquer uso institucional. A ausência de registro em um estado não prova ausência de associação — prova ausência de cadastro.
O Que o Mapa Revela Sobre o País
Um diretório nunca é só uma lista de contatos. É uma radiografia. Quando se olha para as quarenta organizações lado a lado, o desenho que aparece não é o de uma doença — é o de uma desigualdade.
Metade das entidades está em três estados. O Sudeste sozinho concentra treze associações regionais. Enquanto isso, nove unidades da federação não têm registro de nenhuma organização de apoio. Não é que a esclerose múltipla não aconteça no Acre ou no Maranhão. É que, quando acontece, não há quem receba a ligação.
a deficiência de vitaminas, sendo mais importante a vitamina D
Denise Sisterolli Diniz, coordenadora do Centro de Referência em EM do HC-UFG, 2025Ana Maria Levy
Fundou a ABEM em 1984 ao lado do médico Renato Basile. Seu aniversário deu origem ao Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla.
Marco Aurélio Lana-Peixoto
Neuro-oftalmologista, coordenador do CIEM no Hospital das Clínicas da UFMG e um dos autores dos consensos brasileiros de tratamento da EM.
Denise Sisterolli Diniz
Neurologista e professora da UFG, coordena o Centro de Referência em Esclerose Múltipla do Hospital das Clínicas da universidade.
Há um segundo movimento acontecendo, e ele é mais recente. Em 2026, a Fiocruz anunciou que passará a produzir no Brasil a cladribina oral, medicamento de alto custo já distribuído pelo SUS. Quando o país fabrica o próprio remédio, o preço cai e o alcance sobe — e cada real economizado na compra vira consulta, infusão e fisioterapia em algum lugar que hoje não tem nada disso.
Quarenta pontos hoje. O trabalho que resta é acender os nove estados que ainda aparecem apagados no mapa.
A lição prática é simples: associação não substitui médico, e médico não substitui associação. Uma cuida do corpo; a outra cuida do resto — o benefício negado, o transporte que não existe, o emprego que se perdeu, a solidão de explicar cansaço a quem nunca sentiu. Quem usa as duas camadas ao mesmo tempo chega mais longe.
E quem não encontra nenhuma perto de casa tem um terceiro caminho: fundar. Todas as quarenta organizações desta lista começaram exatamente assim — alguém que recebeu um diagnóstico, não achou para onde ligar, e resolveu ser o telefone que faltava.
Quarenta portas espalhadas por um país de vinte e sete estados.
Nove territórios onde a ligação ainda cai no vazio.
Entre uma coisa e outra, gente esperando alguém atender.
Referências
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESCLEROSE MÚLTIPLA. Quem somos. São Paulo, 2025. Disponível em: https://abem.org.br/abem/quem-somos/. Acesso em: ago. 2026.
- COMITÊ BRASILEIRO DE TRATAMENTO E PESQUISA EM ESCLEROSE MÚLTIPLA E DOENÇAS NEUROIMUNOLÓGICAS. História. Disponível em: https://www.bctrims.com.br/. Acesso em: ago. 2026.
- EMPRESA BRASILEIRA DE SERVIÇOS HOSPITALARES. Esclerose Múltipla: HC-UFMG ressalta a importância do diagnóstico e do tratamento precoces. Belo Horizonte, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/ebserh. Acesso em: ago. 2026.
- EMPRESA BRASILEIRA DE SERVIÇOS HOSPITALARES. Esclerose múltipla: avanços em diagnóstico e tratamento auxiliam pacientes do SUS. Belo Horizonte, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/hubrasil. Acesso em: ago. 2026.
- EMPRESA BRASILEIRA DE SERVIÇOS HOSPITALARES. Esclerose múltipla: avanço no diagnóstico reforça papel da informação e da ciência. Brasília, 2025.
- ASSOCIAÇÃO GAÚCHA DE PESSOAS COM ESCLEROSE MÚLTIPLA. Missão, visão e valores. Porto Alegre. Disponível em: https://www.agapem.org.br/. Acesso em: ago. 2026.
- MUITOS SOMOS RAROS. Associações de pacientes. São Paulo, 2021. Disponível em: https://muitossomosraros.com.br/associacoes-de-pacientes/. Acesso em: ago. 2026.
- INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Mapa das Organizações da Sociedade Civil. Brasília. Disponível em: https://mapaosc.ipea.gov.br/. Acesso em: ago. 2026.
- BRASIL. Lei nº 11.303, de 11 de maio de 2006. Institui o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla. Diário Oficial da União, Brasília, 2006.
- ASSOCIAÇÃO DE PACIENTES DE ESCLEROSE MÚLTIPLA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Centros de referência no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://apemerj.org.br/. Acesso em: ago. 2026.
